terça-feira, 10 de junho de 2014

A onda de greves e a reconstrução da classe trabalhadora enquanto sujeito político

Não restam mais dúvidas, as jornadas de junho marcam uma nova etapa na história do Brasil. Ainda é incerto se milhões de pessoas voltarão a ocupar as ruas durante a Copa do Mundo tal como fizeram na Copa das Confederações. Mas, está claro que uma parcela cada vez maior da classe trabalhadora saiu definitivamente da situação de conformismo do período anterior.
            O último momento de ascensão política da classe trabalhadora ocorreu no período de abertura do regime militar. Naquele momento os operários industriais, concentrados em gigantescas e modernas fábricas organizadas no padrão fordista, foram protagonistas das principais lutas do período. Foram fundamentais na construção de um partido de trabalhadores com independência de classe (o Partido dos Trabalhadores: PT) e de uma central sindical autônoma em relação aos governos e aos patrões (a Central Única dos Trabalhadores: CUT).
            Nos anos 1990, a reestruturação produtiva nas indústrias e a aplicação da política neoliberal pelos governos Collor, Itamar e FHC desmantelaram o movimento operário. Os trabalhadores estáveis da época fordista deram lugar a trabalhadores instáveis, o nível do desemprego e o número de pessoas em empregos informais (sem contribuírem para o instituto de previdência e, portanto, sem direitos trabalhistas elementares) elevou-se a níveis estratosférico. A base social do PT e da CUT se esfacelaram, levando a tendência de burocratização e de oligarquização dessas organizações a se tornarem irresistíveis. Com a eleição de Lula em 2002, o PT passaria a ser o braço esquerdo do Capital e a CUT apenas mais uma dessas centrais atreladas ao governo e ao patronato.
            Na metade do primeiro governo de Lula, a economia brasileira passou por um período de prosperidade. A alta taxa de crescimento do PIB permitiu que o governo aplicasse algumas medidas paliativas que melhoraram as condições de vida de grande parte da população sem tocar nos interesses da classe dominante, principalmente através do programa bolsa família, de uma pequena elevação real do salário-mínimo, da facilitação de crédito e isenções fiscais para estimular a compra de bens de consumo e, por fim, da aplicação de um programa de investimentos estatais conhecido como PAC (Programa de Aceleração do Crescimento). Com o impacto da crise global de superprodução de 2009, as condições econômicas que permitiram reduzir a desigualdade sem tocar nos interesses dos mais poderosos passou a se esgotar. Nesse momento, enquanto o investimento em programas sociais (saúde, educação, moradia, etc.) continuavam contraídos em função do fato de que o governo gasta quase metade do orçamento com juros da dívida, o dinheiro público gasto com a Copa aqueceu a panela de pressão que estourou quando uma manifestação contra o aumento da passagem em São Paulo terminou em repressão policial. Era o início das jornadas de junho.
            Esta jornada não foi um raio caído do céu. Segundo o DIEESE, o número de greves em 2012 foi o maior desde 1997. Se durante o governo Lula, o número de desempregados e de trabalhadores informais se reduziu, o crescimento dos empregos formais se deu principalmente no nível de até 3 salários-mínimos. Segundo o mesmo DIEESE, em maio deste ano, o salário-mínimo necessário para garantir o mínimo de bem-estar dos trabalhadores deveria ser R$3.079,31, ou seja, o equivalente a 4,25 vezes o salário-mínimo atual. Ora, segundo os dados do IBGE, em 2011 o número de trabalhadores que ganhavam até 2 salários-mínimos (menos da metade do mínimo necessário) correspondia a 59,6% da população economicamente ativa. Com o desemprego em baixa, estes trabalhadores brutalmente explorados e endividados reconquistaram sua confiança e as greves em número cada vez maior passaram também a assumir um caráter cada vez mais ofensivo (isto é, não apenas por reposição de perdas, mas por aumentos reais de salários e por melhoria das condições de trabalho). É importante observar que estas greves ocorreram apesar ou até mesmo contra muitas direções sindicais comprometidas com a ordem social. Estas greves são um sintoma de que um novo momento de recomposição da classe trabalhadora, comparável com aquela do início dos anos 1980, pode estar se iniciando. O caráter radical das greves dos garis no Rio de Janeiro e dos metroviários em São Paulo são símbolos dessa nova etapa da luta de classes.

            Resta verificar agora se ascensão dos movimentos grevistas e das manifestações populares no Brasil resultarão em formas mais orgânicas de luta e organização. 

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