quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Algumas questões didáticas sobre estratégia


Algumas questões didáticas sobre estratégia










Como construir o socialismo? A resposta de Marx permanece atual. Os trabalhadores precisam tomar o poder da burguesia à força. Somente assim será possível coletivizar os grandes meios de produção.

Mas, se os trabalhadores não querem tomar poder? Precisamos entender a razão disto e a forma de reverter essa situação.

Por que os trabalhadores não querem tomar o poder? As condições de vida dos trabalhadores produzem a impressão de que o capitalismo é a forma natural de organização humana. Como a burguesia controla o processo de difusão de ideias (principalmente os meios de comunicação de massa como a televisão), ela consegue reforçar nos trabalhadores essa ideia.


Como os trabalhadores podem romper com a ideologia burguesa e atingir a consciência socialista? Principalmente através de suas experiências de luta e auto-organização. A grande massa trabalhadora não se conscientiza estudando, mas com experiências concretas.


E como levar os trabalhadores para a luta? Os trabalhadores tendem, de tempos em tempos, a lutar de forma espontânea contra a opressão que sofrem. O próprio funcionamento do capitalismo obriga os trabalhadores e os demais setores oprimidos (mulheres, camponeses, negros, sexos diversos, etc.) a agirem coletivamente para não serem simplesmente esmagados.


Então, os trabalhadores e os demais setores oprimidos naturalmente são levados a lutar contra o capitalismo? Não, as suas lutas tendem a se limitar a reivindicações que melhoram suas vidas dentro do capitalismo. É preciso de uma iniciativa política daqueles que já chegaram à consciência socialista (os revolucionários) para conduzir essas lutas para uma direção anticapitalista.


Que iniciativa seria esta? A experiência histórica ensinou os revolucionários da necessidade de difundir um programa de transição.


O que é programa de transição? É um programa de reivindicações que os trabalhadores e demais setores oprimidos sentem como imediata, mas que não podem ser atingidas dentro do funcionamento normal do capitalismo. Os revolucionários devem estar atentos aos sentimentos das massas em cada época histórica para poder formular reivindicações que possam cumprir esse papel.


Como os revolucionários podem difundir este programa? É preciso que eles estejam inseridos nas lutas, organizando-as. Para isso, devem ser os lutadores mais dedicados para serem reconhecidos pela massa como seus dirigentes. Devem também agir de forma unificada, compartilhar ideias comuns, recrutar novos revolucionários. Ou seja, precisam organizar-se em um partido político.


Ao tornar os revolucionários seus dirigentes, os trabalhadores não estariam criando novos patrões que lhes dizem o que fazer? Dirigentes que estejam comprometidos com o sentimento das massas e não em impor de fora interesses particulares podem se comparar a maestros. Uma orquestra não sente o maestro que a organiza como um opressor.


Mas, os partidos políticos não são todos iguais, interessados apenas no poder? Os partidos revolucionários estão sim preocupados em tomar o poder, não para satisfazer os interesses pessoais dos seus membros, mas para edificar a sociedade socialista. Certamente existem pessoas oportunistas que participam dos movimentos sociais e dos partidos da classe trabalhadora (revolucionários ou não) por interesses particulares tais como poder e dinheiro. A questão aqui é, sobretudo, política. Os revolucionários precisam lutar politicamente contra eles. Daí que os revolucionários devem defender a mais ampla democracia nos movimentos e nos partidos em que participam ao invés de querer controlar o poder. A concentração de poder facilita que os interesses dos oportunistas se imponham aos da massa. A ampla democracia permite que a massa aprenda com a própria experiência quem são esses elementos e passe a rejeitá-los com o tempo. Se é através da experiência que as massas aprendem, será através da luta emancipatória que elas aprenderão a se tornar emancipadas. Por isso também os revolucionários devem tomar o poder não para si, mas para consolidar o poder dos instrumentos de democracia socialista.


O que seriam estes instrumentos de democracia socialista e como eles se formam? São instrumentos que permitem que os trabalhadores exerçam o mais diretamente possível o poder, como as comunas, sovietes, conselhos operários, conselhos populares, cordões industriais, etc. Eles são criados pela própria massa trabalhadora ao longo da suas lutas em momentos que esta atinge um alto nível de atividade e consciência política. Os revolucionários devem estimular e se comprometer radicalmente com a construção desses mecanismos de poder popular, convencendo a todos da necessidade que eles substituam os atuais instrumentos de poder político (presidente da República, Senado, Câmara de Deputados, etc.). A democracia representativa de hoje pode ser chamada de burguesa, ela não permite que os trabalhadores exerçam o poder, mas somente que se escolha de tempos em tempos (de quatro em quatro anos) quem governará a favor do capital.


Se a revolução implica em substituir a democracia burguesa, os partidos revolucionários devem participar de eleições? Deve sim disputar eleições, pois é um dos raros momentos que o povo está disposto a discutir política. Além disso, quando seus membros assumem cargos eletivos nesta democracia podem defender os interesses da classe trabalhadora no interior dela. Se ocuparem posições centrais de poder (a Presidência da República, por exemplo) podem inclusive tomar a iniciativa de colocar na agenda política reivindicações do programa de transição, acelerando a dinâmica revolucionária.


A participação em eleições contém algum tipo de risco? A democracia representativa faz com que o poder se concentre em poucas mãos. Os revolucionários não podem ignorar o fato de que o poder corrompe. Ocupar cargos eletivos é um dos muitos meios necessários para a revolução, mas quando este é considerado o único ou o principal meio, o caminho eleitoral geralmente se torna fonte de degeneração política. A participação em eleições deve estar condicionada a alguns princípios. O principal deles é a independência de classe (não se aliar com partidos burgueses, não aceitar dinheiros de empresas e grandes empresários, jamais abandonar o programa de transição em nome da governabilidade ou da atração de votos, etc.).


Portanto, um partido revolucionário pode se degenerar? Ele é formado por seres-humanos que fazem parte da sociedade capitalista. Pessoas oportunistas estão sempre se inserindo nele e mesmo os revolucionários mais sinceros estão sendo sempre sofrendo tentação pelo poder e pelo dinheiro. Como já foi dito, o único antídoto para isso é a mais ampla democracia. Não por acaso a degeneração de um partido revolucionário normalmente é precedida por um processo de degeneração de sua democracia.


Então um partido revolucionário não é formado somente por revolucionários? Para poder dirigir a classe trabalhadora ele precisa organizar o maior possível de pessoas. Deve sim rejeitar aqueles elementos sabidamente oportunistas. Mas, jamais deve rejeitar um trabalhador porque ele não atingiu plenamente a convicção socialista e revolucionária. Desse modo, teremos sempre a presença de ideias reformistas, racistas, machistas, homofóbicas, despreocupada com o ambiente, etc, no seio do partido. De onde a necessidade de que a educação socialista e revolucionária de seus membros seja uma das prioridades de sua prática organizativa. Outro problema adicional é o fato de que existem diversas visões que podemos caracterizar corretamente como revolucionárias.


Como estabelecer o limite que separa o oportunismo de uma visão revolucionária diferente? Frequentemente a necessária luta contra o oportunismo transborda para a luta sectária contra visões revolucionárias diferentes, desviando assim o foco da luta contra a burguesia para a luta dos próprios revolucionários entre si. Se é necessário combater o oportunismo no seio do partido, não é menos necessário o exercício da tolerância mútua e da busca de sínteses entre as diversas visões. Para isso é necessário privilegiar o consenso ao invés de decidir tudo por votação e estabelecer algumas garantias organizativas: direito de tendência (grupo que se organiza no interior do partido para defender uma visão comum), garantia de direitos para as minorias, direção partidária exercida de forma compartilhada entre as diversas tendências, etc.


A existência de diversas visões revolucionárias é um problema difícil de ser enfrentado? Sim, mas ela trás também muitas vantagens, pois garantem a vida democrática e pluralista no seio do partido, facilita a autocrítica e a correção de rumos, etc. O problema se torna real quando cada visão revolucionária acredita ser a única correta e se fecha em si mesma. O partido revolucionário se desloca então da forma partido para a forma de seita revolucionária, sem grande poder de influência sobre a grande massa trabalhadora e oprimida.


Qual o antídoto para fugir do isolamento? Historicamente os revolucionários desenvolveram a tática de Frente Única. Se a emancipação da classe trabalhadora é obra da própria classe trabalhadora, o objetivo principal dos revolucionários deve ser o de auxiliar a construção desta como uma força política independente. Nesse sentido, devem participar de todas as lutas que mobilizam a classe trabalhadora na defesa de seus interesses formando frente comum com os diversos partidos e forças política que influenciam a classe trabalhadora para golpear junto a burguesia. Mas os revolucionários devem marchar em separado, pois os setores reformistas e oportunistas jamais serão capazes de levar com coerência demandas de transição para o socialismo. Como já foi dito, é na própria luta concreta que a massa trabalhadora percebe a incoerência desses setores na defesa de seus interesses, o que pode levá-la a se afastar deles e se colocar sob direção revolucionária.


Essa tática de Frente Única permanece válida nos dias de hoje? Sim. Inclusive este princípio deve ser aplicado também para a formação de partidos políticos. A voz dos revolucionários ganha muita força quando formam partidos amplos reunindo grupos com diversas visões, incluindo aí não apenas diferentes visões revolucionárias, mas reformistas sinceros.


O que são reformistas sinceros? Desde a década de 1980, os partidos reformistas quando assumiram o governo passaram a tomar medidas neoliberais, isso é, passaram a tomar medidas que retiravam direitos dos trabalhadores. Isso ocorreu em função do fato de que hoje a sobrevivência do capitalismo exige isso, não tem como administrar pacificamente o capitalismo de outro modo. Em função disso, alguns setores reformistas romperam com estes partidos por acreditarem sinceramente na ideia de que é possível melhorar a vida dos trabalhadores no capitalismo. É com estes setores que se deve formar frentes únicas e partidos amplos, desde que eles estejam comprometidos a não governar para a burguesia e nem a participar de governos com os partidos reformistas que aplicam medidas neoliberais.

Temos com estas questões uma forma infalível para se tomar o poder? De modo algum, as questões aqui apenas transmitem alguns ensinamentos históricos das nossas lutas. Como dizia Daniel Bensaid, podemos falar somente de hipóteses estratégicas. Por exemplo, quando se fala da necessidade dos trabalhadores tomarem o poder, deve-se lembrar que já foi feito isso de muitas maneiras diferentes (guerra de guerrilhas como no caso de Cuba, guerra popular prolongada como o exemplo chinês e greve geral insurrecional como na Revolução Russa). Pelo grau de urbanização e do número de proletários do mundo contemporâneo não é difícil prever que a greve geral insurrecional é a maneira mais provável. Mas, o que vai desencadeá-la e a forma que ela vai assumir são imprevisíveis. Toda revolução é imprevisível, pois, como dizia Lênin, expressa o sentimento de milhões de pessoas em momento de máxima exaltação de luta de classes. Nesse sentido, os revolucionários devem se colocar em uma posição de humildade, como simples transmissores de experiências de luta, incapazes de determinar com precisão cada passo necessário para a vitória. Essa depende não apenas deles, mas da ação das grandes massas trabalhadoras.