sexta-feira, 17 de janeiro de 2020

O que é revolução social?


Revolução social
O que é uma revolução social? A grosso modo, podemos dizer que é a mudança do modo de produção social como resultado da luta de classes. Uma revolução ocorre quando essa luta, excepcionalmente, termina na vitória de uma classe opositora sobre a até então classe dominante. Podemos distinguir historicamente dois tipos de revoluções sociais: as burguesas (que consolidaram o capitalismo) e as proletárias (que podem dar origem a constituição de uma sociedade comunista).

As revoluções burguesas
As revoluções burguesas são o coroamento político de uma longa evolução econômica e social em que o processo histórico de acumulação de capital transforma a classe burguesa na classe economicamente mais poderosa. As revoluções burguesas, em sua forma clássica, ocorrem quando a sociedade feudal já está em pleno processo de dissolução. Ou seja, quando os senhores feudais não encontram mais forças para resistir politicamente ao enorme poder econômico e social acumulado pela burguesia.
O iluminismo, sobretudo em sua vertente liberal, é a visão de mundo que inspira as grandes lutas sociais do período. Como a dominação feudal era necessariamente baseada na desigualdade de direitos que caracteriza a sociedade estamental, a mudança política que as revoluções burguesas aspiram é a que promove a igualdade de direitos e a limitação do poder de Estado intervir sobre os negócios privados da burguesia. Por essa razão, as revoluções burguesas são capazes de mobilizar as grandes massas populares a partir da de valores como democracia, liberdade e igualdade. Contra o obscurantismo dos dogmas religiosos e a dominação servil característicos da sociedade feudal, as revoluções burguesas entregaram a isonomia jurídica, as liberdades religiosa, científica, de pensamento e de expressão, de imprensa, de ir e vir e, acima de tudo – lembrando que o capitalismo repousa sobre a extração do mais-valor do trabalho pelo capital – , os direitos de propriedade (garantia para a existência do capital) e de escolher o emprego (condição para a generalização do trabalho assalariado).
Entretanto, uma vez vitoriosas, as revoluções burguesas deram origem a novas contradições no seio do povo. A igualdade jurídica se tornou o substrato de crescentes desigualdades sociais efetivas; as liberdades individuais se traduziram em submissão do trabalho ao capital; a liberdade de imprensa se transformou no poder dos donos dos meios de comunicação manipularem a opinião pública; e a democracia política se apresentou como uma simples máscara da dominação política da burguesia sobre o conjunto da sociedade. Desde o início, essas revoluções conviveram com enormes contradições. Nos Estados Unidos, a constituição liberal promulgada em 1789 não impediu que parte do país convivesse com a escravização dos negros até o fim da Guerra da Secessão e de políticas de segregação racial até a década de 1960. Na França, a declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão não impediu que mulheres fossem levadas à guilhotina por exigirem direitos iguais. Por muito tempo, as democracias que essas revoluções deram origem impunham o voto censitário (para que apenas os mais ricos escolhessem os representantes “populares”), proibiram o direito de greve e colocaram na ilegalidade os sindicatos, os partidos socialistas e as demais organizações políticas ligadas aos interesses dos trabalhadores.
Desse modo, é possível afirmar que a continuação do caráter progressista dessas revoluções passou a depender das lutas das classes populares e demais grupos oprimidos (mulheres, negros, etc.) contra os privilégios da própria burguesia. Se as revoluções burguesas são a base para a consolidação dos chamados direitos universais dos seres humanos através do estabelecimento formal dos direitos civis, os direitos políticos (sufrágio universal, direito de protestar, de organizar partidos, sindicatos, movimentos sociais, etc.) e sociais (direitos trabalhistas, previdenciários, educação, saúde, etc.) são conquistas que resultaram, na maioria das vezes, de vitórias políticas obtidas contra a própria burguesia. Como observa o sociólogo T.H. Marshall, apesar do capitalismo ser o solo sobre o qual a noção moderna de cidadania se desenvolveu, “não há dúvida de que (...) a cidadania e o sistema de classe capitalista estão em guerra” (MARSHALL, 1967, p.76).

Reforma e revolução
De acordo com Florestan Fernandes, a “palavra revolução [...] se aplica para designar mudanças drásticas e violentas da estrutura social. Daí o contraste frequente de ‘mudança gradual’ e ‘mudança revolucionária’ que sublinha o teor da revolução como uma mudança que ‘mexe nas estruturas’, que subverte a ordem social imperante na sociedade” (FERNANDES, 2012, pp.45-46).
A luta de classes é uma guerra civil permanente, ora oculta, ora aberta. A classe dominante desenvolve essa guerra sobretudo através das instituições de repressão do Estado capitalista e de seus aparelhos privados de hegemonia (meios de comunicação de massa, think tanks, etc.). Os trabalhadores, por sua vez, também organizam, com maior ou menor sucesso, seus próprios aparelhos de hegemonia tais como movimentos sociais, sindicatos e partidos socialistas. Em tempos de “ordem” social, a correlação de forças é tão desequilibrada em favor da classe dominante que a existência da guerra civil se oculta. A classe trabalhadora se mantém refém da ideologia da classe dominante, se tornando incapaz de questionar a exploração do trabalho a qual está submetida. Nesses casos, suas lutas, quando muito, impulsionam somente alguns processos de reformas sociais. 
Em contraste com a revolução, os processos de reformas sociais consistem em pequenas transformações que ampliam e/ou efetivam os direitos dos cidadãos, mas que são incapazes de alterar uma estrutura social. No capitalismo, em raros momentos de correlação de forças favoráveis para as classes trabalhadoras, esses processos podem melhorar as condições gerais da vida do povo, algo que se observa sobretudo nas experiências de edificação do Estado de Bem-Estar social na Europa ocidental. Porém, por si só, os processos de reforma são incapazes de superar o capitalismo. Muitas vezes, inclusive, as lutas por reformas acabam por desviar os aparelhos de hegemonia da classe trabalhadora do objetivo revolucionário, comprometendo-os cada vez mais com a manutenção da ordem burguesa. Não são poucos os casos históricos em que governos liderados por partidos criados pela classe trabalhadora conduziram processos contrarrevolucionários. Inclusive, no mundo atual, muitos desses partidos acabaram por se comprometer com políticas de contrarreformas sociais de caráter neoliberal.
De qualquer modo, não se acumula força organizativa e se desenvolve a consciência de classe sem a luta por reformas que os trabalhadores percebam como imediatamente necessárias e factíveis. A relação entre reforma e revolução tende a assumir mais a condição de unidade contraditória do que a de oposição mutuamente excludente.
A luta cotidiana pelas reformas, pela melhoria da situação do povo trabalhador no próprio quadro do regime existente, pelas instituições democráticas, constitui (...) o único meio de travar a luta da classe proletária e trabalhar no sentido de sua finalidade, isto é, a luta pela conquista do poder político e supressão do assalariado. Existe (...) um laço indissolúvel entre as reformas sociais e a revolução, sendo a luta pelas reformas o meio, mas a revolução social o fim (LUXEMBURGO, 2003, p. 17).

Trata-se da daquilo que a tradição marxista revolucionária descreve como processo de constituição do proletariado como “classe em si” e sua passagem para a condição de “classe para si”. Como vimos, o proletariado surgiu na história como cauda da burguesia em suas revoluções. É na luta pelo aprofundamento dessas revoluções (reformas sociais) que ele vai se constituindo como classe independente (“classe em si”). Porém, somente quando percebe a possibilidade e a necessidade histórica de se tornar classe dominante para solucionar e não apenas remediar os sintomas do mal que lhe atinge, o proletariado torna-se apto a desempenhar seu papel no processo de transformação histórica. Nesses momentos de conversão do proletariado em “classe para si”, a guerra civil até então oculta torna-se aberta, dando origem a processos de revolução e contrarrevolução social.

As revoluções proletárias
Nas sociedades de classe, as grandes decisões políticas e econômicas competem sempre a uma pequena minoria. A revolução proletária tem como objetivo eliminar justamente essa divisão entre dominantes e dominados. Dessa forma, ela se diferencia de todas as demais revoluções da história porque não pretende trocar uma minoria no poder por outra minoria, mas realizar uma grande transformação social através da ação da grande maioria do povo em nome dessa mesma maioria. Nesse sentido, Trotsky definiu a revolução proletária como uma “irrupção violenta das massas no domínio onde se regulam os seus próprios destinos” (TROTSKY,.).
De acordo com Florestan Fernandes, para realizar sua revolução,

o proletariado precisa, antes de mais nada, conquistar o poder. E, mais tarde, a partir daí, é que poderá construir sua versão de democracia e, em seguida, dedicar-se à constituição de uma sociedade igualitária. [...] A revolução em processo que caracteriza a presença e o papel construtivo das classes trabalhadoras na história, não é só uma revolução anticapitalista e antiburguesa. Ela é uma revolução socialista, que se negará como tal na medida em que o socialismo se converter, por sua vez, em padrão de uma nova civilização, culminando seu eixo final que desemboca no comunismo (FERNANDES, 2012, pp. 51-52).

A revolução proletária não visa substituir a dominação de uma classe por outra, mas abolir a existência das classes sociais e do aparelho de Estado sobre o qual repousa essa dominação. A dominação do proletariado sobre a burguesia, o chamado socialismo, consiste somente um período transitório em que o proletariado se utiliza do aparelho de Estado para socializar os grandes meios de produção através da expropriação da burguesia. Se os meios de produção passam a pertencer a todos os membros da sociedade, essa necessariamente deixa de se dividir em proprietários (burgueses) e não proprietários que são obrigados a vender sua força de trabalho em troca de um salário (proletários), isto é, as classes sociais desaparecem. Todos os membros da sociedade se convertem em produtores livres que se associam para produzir coletivamente, de acordo com um plano comum, os recursos necessários a sua existência. Conforme a sociedade vai assumindo a forma de “uma associação de homens livres” que trabalham “com meios de produção coletivos” (MARX, 2013, p.153), a dominação política do proletariado (socialismo) vai se tornando desnecessária, cedendo assim espaço para o advento do comunismo, o qual consiste em uma sociedade sem classes e sem Estado.
Se as revoluções burguesas tiveram como base o pensamento liberal, as revoluções proletárias encontram no marxismo revolucionário sua ferramenta científica. Por essa razão, é importante desfazer aqui uma confusão entre socialização e estatização dos meios de produção presente em algumas versões da teoria marxista que serviram para legitimar os regimes stalinistas. Marx era crítico daqueles que sonhavam com uma mundo perfeito e depois tentavam impor seu modelo social para a sociedade. Para ele, a forma de organização da nova sociedade era uma tarefa que caberia à própria classe revolucionária, não à inventores de mundo. Por essa razão, evitou ao máximo descrever como a futura sociedade comunista deveria se organizar. Nos poucos momentos que ousou falar sobre isso, teve como base as próprias experiências revolucionárias, sobretudo a Comuna de Paris de 1871. E como ele descreve o comunismo? Como uma sociedade composta por “sociedades cooperativas unidas” com a tarefa de “regular a produção nacional segundo um plano comum” (MARX, 2008, p. 407). Ou seja, a superação do modo de produção capitalista exige a conjugação de dois princípios: a autogestão das empresas (cooperativismo) e o planejamento democrático da produção. Se uma revolução proletária não for capaz de aplicar esses dois princípios, ela terá um processo incapaz de superar a lógica do capital e, portanto, falhado na tarefa de edificação de um novo modo de produção. Esse é o caso da maioria das experiências revolucionárias do século XX em que a organização econômica se baseou em empresas estatais administrada por funcionários públicos comandos por um partido único e trabalhando de acordo com um plano elaborado pela alta burocracia estatal, em regime de produção de capital em concorrência mundial com os Estados Capitalistas. Por motivos diferentes, é também o caso da original experiência iugoslava em que o sistema de cooperativas não se propôs a construir um plano comum mantendo a produção social presa aos limites do mercado capitalista.

terça-feira, 10 de junho de 2014

A onda de greves e a reconstrução da classe trabalhadora enquanto sujeito político

Não restam mais dúvidas, as jornadas de junho marcam uma nova etapa na história do Brasil. Ainda é incerto se milhões de pessoas voltarão a ocupar as ruas durante a Copa do Mundo tal como fizeram na Copa das Confederações. Mas, está claro que uma parcela cada vez maior da classe trabalhadora saiu definitivamente da situação de conformismo do período anterior.
            O último momento de ascensão política da classe trabalhadora ocorreu no período de abertura do regime militar. Naquele momento os operários industriais, concentrados em gigantescas e modernas fábricas organizadas no padrão fordista, foram protagonistas das principais lutas do período. Foram fundamentais na construção de um partido de trabalhadores com independência de classe (o Partido dos Trabalhadores: PT) e de uma central sindical autônoma em relação aos governos e aos patrões (a Central Única dos Trabalhadores: CUT).
            Nos anos 1990, a reestruturação produtiva nas indústrias e a aplicação da política neoliberal pelos governos Collor, Itamar e FHC desmantelaram o movimento operário. Os trabalhadores estáveis da época fordista deram lugar a trabalhadores instáveis, o nível do desemprego e o número de pessoas em empregos informais (sem contribuírem para o instituto de previdência e, portanto, sem direitos trabalhistas elementares) elevou-se a níveis estratosférico. A base social do PT e da CUT se esfacelaram, levando a tendência de burocratização e de oligarquização dessas organizações a se tornarem irresistíveis. Com a eleição de Lula em 2002, o PT passaria a ser o braço esquerdo do Capital e a CUT apenas mais uma dessas centrais atreladas ao governo e ao patronato.
            Na metade do primeiro governo de Lula, a economia brasileira passou por um período de prosperidade. A alta taxa de crescimento do PIB permitiu que o governo aplicasse algumas medidas paliativas que melhoraram as condições de vida de grande parte da população sem tocar nos interesses da classe dominante, principalmente através do programa bolsa família, de uma pequena elevação real do salário-mínimo, da facilitação de crédito e isenções fiscais para estimular a compra de bens de consumo e, por fim, da aplicação de um programa de investimentos estatais conhecido como PAC (Programa de Aceleração do Crescimento). Com o impacto da crise global de superprodução de 2009, as condições econômicas que permitiram reduzir a desigualdade sem tocar nos interesses dos mais poderosos passou a se esgotar. Nesse momento, enquanto o investimento em programas sociais (saúde, educação, moradia, etc.) continuavam contraídos em função do fato de que o governo gasta quase metade do orçamento com juros da dívida, o dinheiro público gasto com a Copa aqueceu a panela de pressão que estourou quando uma manifestação contra o aumento da passagem em São Paulo terminou em repressão policial. Era o início das jornadas de junho.
            Esta jornada não foi um raio caído do céu. Segundo o DIEESE, o número de greves em 2012 foi o maior desde 1997. Se durante o governo Lula, o número de desempregados e de trabalhadores informais se reduziu, o crescimento dos empregos formais se deu principalmente no nível de até 3 salários-mínimos. Segundo o mesmo DIEESE, em maio deste ano, o salário-mínimo necessário para garantir o mínimo de bem-estar dos trabalhadores deveria ser R$3.079,31, ou seja, o equivalente a 4,25 vezes o salário-mínimo atual. Ora, segundo os dados do IBGE, em 2011 o número de trabalhadores que ganhavam até 2 salários-mínimos (menos da metade do mínimo necessário) correspondia a 59,6% da população economicamente ativa. Com o desemprego em baixa, estes trabalhadores brutalmente explorados e endividados reconquistaram sua confiança e as greves em número cada vez maior passaram também a assumir um caráter cada vez mais ofensivo (isto é, não apenas por reposição de perdas, mas por aumentos reais de salários e por melhoria das condições de trabalho). É importante observar que estas greves ocorreram apesar ou até mesmo contra muitas direções sindicais comprometidas com a ordem social. Estas greves são um sintoma de que um novo momento de recomposição da classe trabalhadora, comparável com aquela do início dos anos 1980, pode estar se iniciando. O caráter radical das greves dos garis no Rio de Janeiro e dos metroviários em São Paulo são símbolos dessa nova etapa da luta de classes.

            Resta verificar agora se ascensão dos movimentos grevistas e das manifestações populares no Brasil resultarão em formas mais orgânicas de luta e organização. 

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Algumas questões didáticas sobre estratégia


Algumas questões didáticas sobre estratégia










Como construir o socialismo? A resposta de Marx permanece atual. Os trabalhadores precisam tomar o poder da burguesia à força. Somente assim será possível coletivizar os grandes meios de produção.

Mas, se os trabalhadores não querem tomar poder? Precisamos entender a razão disto e a forma de reverter essa situação.

Por que os trabalhadores não querem tomar o poder? As condições de vida dos trabalhadores produzem a impressão de que o capitalismo é a forma natural de organização humana. Como a burguesia controla o processo de difusão de ideias (principalmente os meios de comunicação de massa como a televisão), ela consegue reforçar nos trabalhadores essa ideia.


Como os trabalhadores podem romper com a ideologia burguesa e atingir a consciência socialista? Principalmente através de suas experiências de luta e auto-organização. A grande massa trabalhadora não se conscientiza estudando, mas com experiências concretas.


E como levar os trabalhadores para a luta? Os trabalhadores tendem, de tempos em tempos, a lutar de forma espontânea contra a opressão que sofrem. O próprio funcionamento do capitalismo obriga os trabalhadores e os demais setores oprimidos (mulheres, camponeses, negros, sexos diversos, etc.) a agirem coletivamente para não serem simplesmente esmagados.


Então, os trabalhadores e os demais setores oprimidos naturalmente são levados a lutar contra o capitalismo? Não, as suas lutas tendem a se limitar a reivindicações que melhoram suas vidas dentro do capitalismo. É preciso de uma iniciativa política daqueles que já chegaram à consciência socialista (os revolucionários) para conduzir essas lutas para uma direção anticapitalista.


Que iniciativa seria esta? A experiência histórica ensinou os revolucionários da necessidade de difundir um programa de transição.


O que é programa de transição? É um programa de reivindicações que os trabalhadores e demais setores oprimidos sentem como imediata, mas que não podem ser atingidas dentro do funcionamento normal do capitalismo. Os revolucionários devem estar atentos aos sentimentos das massas em cada época histórica para poder formular reivindicações que possam cumprir esse papel.


Como os revolucionários podem difundir este programa? É preciso que eles estejam inseridos nas lutas, organizando-as. Para isso, devem ser os lutadores mais dedicados para serem reconhecidos pela massa como seus dirigentes. Devem também agir de forma unificada, compartilhar ideias comuns, recrutar novos revolucionários. Ou seja, precisam organizar-se em um partido político.


Ao tornar os revolucionários seus dirigentes, os trabalhadores não estariam criando novos patrões que lhes dizem o que fazer? Dirigentes que estejam comprometidos com o sentimento das massas e não em impor de fora interesses particulares podem se comparar a maestros. Uma orquestra não sente o maestro que a organiza como um opressor.


Mas, os partidos políticos não são todos iguais, interessados apenas no poder? Os partidos revolucionários estão sim preocupados em tomar o poder, não para satisfazer os interesses pessoais dos seus membros, mas para edificar a sociedade socialista. Certamente existem pessoas oportunistas que participam dos movimentos sociais e dos partidos da classe trabalhadora (revolucionários ou não) por interesses particulares tais como poder e dinheiro. A questão aqui é, sobretudo, política. Os revolucionários precisam lutar politicamente contra eles. Daí que os revolucionários devem defender a mais ampla democracia nos movimentos e nos partidos em que participam ao invés de querer controlar o poder. A concentração de poder facilita que os interesses dos oportunistas se imponham aos da massa. A ampla democracia permite que a massa aprenda com a própria experiência quem são esses elementos e passe a rejeitá-los com o tempo. Se é através da experiência que as massas aprendem, será através da luta emancipatória que elas aprenderão a se tornar emancipadas. Por isso também os revolucionários devem tomar o poder não para si, mas para consolidar o poder dos instrumentos de democracia socialista.


O que seriam estes instrumentos de democracia socialista e como eles se formam? São instrumentos que permitem que os trabalhadores exerçam o mais diretamente possível o poder, como as comunas, sovietes, conselhos operários, conselhos populares, cordões industriais, etc. Eles são criados pela própria massa trabalhadora ao longo da suas lutas em momentos que esta atinge um alto nível de atividade e consciência política. Os revolucionários devem estimular e se comprometer radicalmente com a construção desses mecanismos de poder popular, convencendo a todos da necessidade que eles substituam os atuais instrumentos de poder político (presidente da República, Senado, Câmara de Deputados, etc.). A democracia representativa de hoje pode ser chamada de burguesa, ela não permite que os trabalhadores exerçam o poder, mas somente que se escolha de tempos em tempos (de quatro em quatro anos) quem governará a favor do capital.


Se a revolução implica em substituir a democracia burguesa, os partidos revolucionários devem participar de eleições? Deve sim disputar eleições, pois é um dos raros momentos que o povo está disposto a discutir política. Além disso, quando seus membros assumem cargos eletivos nesta democracia podem defender os interesses da classe trabalhadora no interior dela. Se ocuparem posições centrais de poder (a Presidência da República, por exemplo) podem inclusive tomar a iniciativa de colocar na agenda política reivindicações do programa de transição, acelerando a dinâmica revolucionária.


A participação em eleições contém algum tipo de risco? A democracia representativa faz com que o poder se concentre em poucas mãos. Os revolucionários não podem ignorar o fato de que o poder corrompe. Ocupar cargos eletivos é um dos muitos meios necessários para a revolução, mas quando este é considerado o único ou o principal meio, o caminho eleitoral geralmente se torna fonte de degeneração política. A participação em eleições deve estar condicionada a alguns princípios. O principal deles é a independência de classe (não se aliar com partidos burgueses, não aceitar dinheiros de empresas e grandes empresários, jamais abandonar o programa de transição em nome da governabilidade ou da atração de votos, etc.).


Portanto, um partido revolucionário pode se degenerar? Ele é formado por seres-humanos que fazem parte da sociedade capitalista. Pessoas oportunistas estão sempre se inserindo nele e mesmo os revolucionários mais sinceros estão sendo sempre sofrendo tentação pelo poder e pelo dinheiro. Como já foi dito, o único antídoto para isso é a mais ampla democracia. Não por acaso a degeneração de um partido revolucionário normalmente é precedida por um processo de degeneração de sua democracia.


Então um partido revolucionário não é formado somente por revolucionários? Para poder dirigir a classe trabalhadora ele precisa organizar o maior possível de pessoas. Deve sim rejeitar aqueles elementos sabidamente oportunistas. Mas, jamais deve rejeitar um trabalhador porque ele não atingiu plenamente a convicção socialista e revolucionária. Desse modo, teremos sempre a presença de ideias reformistas, racistas, machistas, homofóbicas, despreocupada com o ambiente, etc, no seio do partido. De onde a necessidade de que a educação socialista e revolucionária de seus membros seja uma das prioridades de sua prática organizativa. Outro problema adicional é o fato de que existem diversas visões que podemos caracterizar corretamente como revolucionárias.


Como estabelecer o limite que separa o oportunismo de uma visão revolucionária diferente? Frequentemente a necessária luta contra o oportunismo transborda para a luta sectária contra visões revolucionárias diferentes, desviando assim o foco da luta contra a burguesia para a luta dos próprios revolucionários entre si. Se é necessário combater o oportunismo no seio do partido, não é menos necessário o exercício da tolerância mútua e da busca de sínteses entre as diversas visões. Para isso é necessário privilegiar o consenso ao invés de decidir tudo por votação e estabelecer algumas garantias organizativas: direito de tendência (grupo que se organiza no interior do partido para defender uma visão comum), garantia de direitos para as minorias, direção partidária exercida de forma compartilhada entre as diversas tendências, etc.


A existência de diversas visões revolucionárias é um problema difícil de ser enfrentado? Sim, mas ela trás também muitas vantagens, pois garantem a vida democrática e pluralista no seio do partido, facilita a autocrítica e a correção de rumos, etc. O problema se torna real quando cada visão revolucionária acredita ser a única correta e se fecha em si mesma. O partido revolucionário se desloca então da forma partido para a forma de seita revolucionária, sem grande poder de influência sobre a grande massa trabalhadora e oprimida.


Qual o antídoto para fugir do isolamento? Historicamente os revolucionários desenvolveram a tática de Frente Única. Se a emancipação da classe trabalhadora é obra da própria classe trabalhadora, o objetivo principal dos revolucionários deve ser o de auxiliar a construção desta como uma força política independente. Nesse sentido, devem participar de todas as lutas que mobilizam a classe trabalhadora na defesa de seus interesses formando frente comum com os diversos partidos e forças política que influenciam a classe trabalhadora para golpear junto a burguesia. Mas os revolucionários devem marchar em separado, pois os setores reformistas e oportunistas jamais serão capazes de levar com coerência demandas de transição para o socialismo. Como já foi dito, é na própria luta concreta que a massa trabalhadora percebe a incoerência desses setores na defesa de seus interesses, o que pode levá-la a se afastar deles e se colocar sob direção revolucionária.


Essa tática de Frente Única permanece válida nos dias de hoje? Sim. Inclusive este princípio deve ser aplicado também para a formação de partidos políticos. A voz dos revolucionários ganha muita força quando formam partidos amplos reunindo grupos com diversas visões, incluindo aí não apenas diferentes visões revolucionárias, mas reformistas sinceros.


O que são reformistas sinceros? Desde a década de 1980, os partidos reformistas quando assumiram o governo passaram a tomar medidas neoliberais, isso é, passaram a tomar medidas que retiravam direitos dos trabalhadores. Isso ocorreu em função do fato de que hoje a sobrevivência do capitalismo exige isso, não tem como administrar pacificamente o capitalismo de outro modo. Em função disso, alguns setores reformistas romperam com estes partidos por acreditarem sinceramente na ideia de que é possível melhorar a vida dos trabalhadores no capitalismo. É com estes setores que se deve formar frentes únicas e partidos amplos, desde que eles estejam comprometidos a não governar para a burguesia e nem a participar de governos com os partidos reformistas que aplicam medidas neoliberais.

Temos com estas questões uma forma infalível para se tomar o poder? De modo algum, as questões aqui apenas transmitem alguns ensinamentos históricos das nossas lutas. Como dizia Daniel Bensaid, podemos falar somente de hipóteses estratégicas. Por exemplo, quando se fala da necessidade dos trabalhadores tomarem o poder, deve-se lembrar que já foi feito isso de muitas maneiras diferentes (guerra de guerrilhas como no caso de Cuba, guerra popular prolongada como o exemplo chinês e greve geral insurrecional como na Revolução Russa). Pelo grau de urbanização e do número de proletários do mundo contemporâneo não é difícil prever que a greve geral insurrecional é a maneira mais provável. Mas, o que vai desencadeá-la e a forma que ela vai assumir são imprevisíveis. Toda revolução é imprevisível, pois, como dizia Lênin, expressa o sentimento de milhões de pessoas em momento de máxima exaltação de luta de classes. Nesse sentido, os revolucionários devem se colocar em uma posição de humildade, como simples transmissores de experiências de luta, incapazes de determinar com precisão cada passo necessário para a vitória. Essa depende não apenas deles, mas da ação das grandes massas trabalhadoras.