Revolução social
O que é uma
revolução social? A grosso modo, podemos dizer que é a mudança do modo de
produção social como resultado da luta de classes. Uma revolução ocorre quando
essa luta, excepcionalmente, termina na vitória de uma classe opositora sobre a
até então classe dominante. Podemos distinguir historicamente dois tipos de
revoluções sociais: as burguesas (que consolidaram o capitalismo) e as
proletárias (que podem dar origem a constituição de uma sociedade comunista).
As revoluções burguesas
As revoluções
burguesas são o coroamento político de uma longa evolução econômica e social em
que o processo histórico de acumulação de capital transforma a classe burguesa
na classe economicamente mais poderosa. As revoluções burguesas, em sua forma
clássica, ocorrem quando a sociedade feudal já está em pleno processo de
dissolução. Ou seja, quando os senhores feudais não encontram mais forças para
resistir politicamente ao enorme poder econômico e social acumulado pela
burguesia.
O iluminismo,
sobretudo em sua vertente liberal, é a visão de mundo que inspira as grandes
lutas sociais do período. Como a dominação feudal era necessariamente baseada
na desigualdade de direitos que caracteriza a sociedade estamental, a mudança
política que as revoluções burguesas aspiram é a que promove a igualdade de
direitos e a limitação do poder de Estado intervir sobre os negócios privados
da burguesia. Por essa razão, as revoluções burguesas são capazes de mobilizar
as grandes massas populares a partir da de valores como democracia, liberdade e
igualdade. Contra o obscurantismo dos dogmas religiosos e a dominação servil
característicos da sociedade feudal, as revoluções burguesas entregaram a
isonomia jurídica, as liberdades religiosa, científica, de pensamento e de expressão,
de imprensa, de ir e vir e, acima de tudo – lembrando que o capitalismo repousa
sobre a extração do mais-valor do trabalho pelo capital – , os direitos de
propriedade (garantia para a existência do capital) e de escolher o emprego
(condição para a generalização do trabalho assalariado).
Entretanto,
uma vez vitoriosas, as revoluções burguesas deram origem a novas contradições
no seio do povo. A igualdade jurídica se tornou o substrato de crescentes
desigualdades sociais efetivas; as liberdades individuais se traduziram em
submissão do trabalho ao capital; a liberdade de imprensa se transformou no
poder dos donos dos meios de comunicação manipularem a opinião pública; e a democracia
política se apresentou como uma simples máscara da dominação política da
burguesia sobre o conjunto da sociedade. Desde o início, essas revoluções
conviveram com enormes contradições. Nos Estados Unidos, a constituição liberal
promulgada em 1789 não impediu que parte do país convivesse com a escravização
dos negros até o fim da Guerra da Secessão e de políticas de segregação racial
até a década de 1960. Na França, a declaração dos Direitos do Homem e do
Cidadão não impediu que mulheres fossem levadas à guilhotina por exigirem direitos
iguais. Por muito tempo, as democracias que essas revoluções deram origem
impunham o voto censitário (para que apenas os mais ricos escolhessem os
representantes “populares”), proibiram o direito de greve e colocaram na
ilegalidade os sindicatos, os partidos socialistas e as demais organizações
políticas ligadas aos interesses dos trabalhadores.
Desse modo, é
possível afirmar que a continuação do caráter progressista dessas revoluções passou
a depender das lutas das classes populares e demais grupos oprimidos (mulheres,
negros, etc.) contra os privilégios da própria burguesia. Se as revoluções
burguesas são a base para a consolidação dos chamados direitos universais dos
seres humanos através do estabelecimento formal dos direitos civis, os direitos
políticos (sufrágio universal, direito de protestar, de organizar partidos,
sindicatos, movimentos sociais, etc.) e sociais (direitos trabalhistas,
previdenciários, educação, saúde, etc.) são conquistas que resultaram, na
maioria das vezes, de vitórias políticas obtidas contra a própria burguesia. Como
observa o sociólogo T.H. Marshall, apesar do capitalismo ser o solo sobre o
qual a noção moderna de cidadania se desenvolveu, “não há dúvida de que (...) a
cidadania e o sistema de classe capitalista estão em guerra” (MARSHALL, 1967,
p.76).
Reforma e revolução
De acordo com
Florestan Fernandes, a “palavra revolução [...] se aplica para designar
mudanças drásticas e violentas da estrutura social. Daí o contraste frequente
de ‘mudança gradual’ e ‘mudança revolucionária’ que sublinha o teor da
revolução como uma mudança que ‘mexe nas estruturas’, que subverte a ordem
social imperante na sociedade” (FERNANDES, 2012, pp.45-46).
A luta de
classes é uma guerra civil permanente, ora oculta, ora aberta. A classe
dominante desenvolve essa guerra sobretudo através das instituições de
repressão do Estado capitalista e de seus aparelhos privados de hegemonia
(meios de comunicação de massa, think tanks, etc.). Os trabalhadores, por sua
vez, também organizam, com maior ou menor sucesso, seus próprios aparelhos de
hegemonia tais como movimentos sociais, sindicatos e partidos socialistas. Em
tempos de “ordem” social, a correlação de forças é tão desequilibrada em favor
da classe dominante que a existência da guerra civil se oculta. A classe
trabalhadora se mantém refém da ideologia da classe dominante, se tornando
incapaz de questionar a exploração do trabalho a qual está submetida. Nesses
casos, suas lutas, quando muito, impulsionam somente alguns processos de reformas
sociais.
Em contraste
com a revolução, os processos de reformas sociais consistem em pequenas
transformações que ampliam e/ou efetivam os direitos dos cidadãos, mas que são
incapazes de alterar uma estrutura social. No capitalismo, em raros momentos de
correlação de forças favoráveis para as classes trabalhadoras, esses processos
podem melhorar as condições gerais da vida do povo, algo que se observa
sobretudo nas experiências de edificação do Estado de Bem-Estar social na
Europa ocidental. Porém, por si só, os processos de reforma são incapazes de superar
o capitalismo. Muitas vezes, inclusive, as lutas por reformas acabam por
desviar os aparelhos de hegemonia da classe trabalhadora do objetivo
revolucionário, comprometendo-os cada vez mais com a manutenção da ordem
burguesa. Não são poucos os casos históricos em que governos liderados por
partidos criados pela classe trabalhadora conduziram processos
contrarrevolucionários. Inclusive, no mundo atual, muitos desses partidos acabaram
por se comprometer com políticas de contrarreformas sociais de caráter
neoliberal.
De qualquer
modo, não se acumula força organizativa e se desenvolve a consciência de classe
sem a luta por reformas que os trabalhadores percebam como imediatamente
necessárias e factíveis. A relação entre reforma e revolução tende a assumir
mais a condição de unidade contraditória do que a de oposição mutuamente
excludente.
A luta cotidiana pelas reformas, pela
melhoria da situação do povo trabalhador no próprio quadro do regime existente,
pelas instituições democráticas, constitui (...) o único meio de travar a luta
da classe proletária e trabalhar no sentido de sua finalidade, isto é, a luta
pela conquista do poder político e supressão do assalariado. Existe (...) um
laço indissolúvel entre as reformas sociais e a revolução, sendo a luta pelas
reformas o meio, mas a revolução social o fim (LUXEMBURGO, 2003, p. 17).
Trata-se da
daquilo que a tradição marxista revolucionária descreve como processo de
constituição do proletariado como “classe em si” e sua passagem para a condição
de “classe para si”. Como vimos, o proletariado surgiu na história como cauda
da burguesia em suas revoluções. É na luta pelo aprofundamento dessas
revoluções (reformas sociais) que ele vai se constituindo como classe independente
(“classe em si”). Porém, somente quando percebe a possibilidade e a necessidade
histórica de se tornar classe dominante para solucionar e não apenas remediar
os sintomas do mal que lhe atinge, o proletariado torna-se apto a desempenhar
seu papel no processo de transformação histórica. Nesses momentos de conversão
do proletariado em “classe para si”, a guerra civil até então oculta torna-se
aberta, dando origem a processos de revolução e contrarrevolução social.
As revoluções proletárias
Nas sociedades de classe, as grandes decisões
políticas e econômicas competem sempre a uma pequena minoria. A revolução
proletária tem como objetivo eliminar justamente essa divisão entre dominantes
e dominados. Dessa forma, ela se diferencia de todas as demais revoluções da
história porque não pretende trocar uma minoria no poder por outra minoria, mas
realizar uma grande transformação social através da ação da grande maioria do
povo em nome dessa mesma maioria. Nesse sentido, Trotsky definiu a revolução
proletária como uma “irrupção violenta das massas no domínio onde se regulam os
seus próprios destinos” (TROTSKY,.).
De acordo com Florestan Fernandes, para realizar sua
revolução,
o proletariado precisa, antes de mais nada, conquistar
o poder. E, mais tarde, a partir daí, é que poderá construir sua versão de
democracia e, em seguida, dedicar-se à constituição de uma sociedade
igualitária. [...] A revolução em processo que caracteriza a presença e o papel
construtivo das classes trabalhadoras na história, não é só uma revolução
anticapitalista e antiburguesa. Ela é uma revolução socialista, que se negará
como tal na medida em que o socialismo se converter, por sua vez, em padrão de
uma nova civilização, culminando seu eixo final que desemboca no comunismo (FERNANDES,
2012, pp. 51-52).
A revolução proletária não visa substituir a
dominação de uma classe por outra, mas abolir a existência das classes sociais
e do aparelho de Estado sobre o qual repousa essa dominação. A dominação do
proletariado sobre a burguesia, o chamado socialismo, consiste somente um
período transitório em que o proletariado se utiliza do aparelho de Estado para
socializar os grandes meios de produção através da expropriação da burguesia.
Se os meios de produção passam a pertencer a todos os membros da sociedade, essa
necessariamente deixa de se dividir em proprietários (burgueses) e não
proprietários que são obrigados a vender sua força de trabalho em troca de um
salário (proletários), isto é, as classes sociais desaparecem. Todos os membros
da sociedade se convertem em produtores livres que se associam para produzir
coletivamente, de acordo com um plano comum, os recursos necessários a sua existência.
Conforme a sociedade vai assumindo a forma de “uma associação de homens livres”
que trabalham “com meios de produção coletivos” (MARX, 2013, p.153), a
dominação política do proletariado (socialismo) vai se tornando desnecessária, cedendo
assim espaço para o advento do comunismo, o qual consiste em uma sociedade sem
classes e sem Estado.
Se as revoluções burguesas tiveram como base o
pensamento liberal, as revoluções proletárias encontram no marxismo revolucionário
sua ferramenta científica. Por essa razão, é importante desfazer aqui uma
confusão entre socialização e estatização dos meios de produção presente em
algumas versões da teoria marxista que serviram para legitimar os regimes
stalinistas. Marx era crítico daqueles que sonhavam com uma mundo perfeito e
depois tentavam impor seu modelo social para a sociedade. Para ele, a forma de
organização da nova sociedade era uma tarefa que caberia à própria classe
revolucionária, não à inventores de mundo. Por essa razão, evitou ao máximo
descrever como a futura sociedade comunista deveria se organizar. Nos poucos
momentos que ousou falar sobre isso, teve como base as próprias experiências
revolucionárias, sobretudo a Comuna de Paris de 1871. E como ele descreve o
comunismo? Como uma sociedade composta por “sociedades cooperativas unidas” com
a tarefa de “regular a produção nacional segundo um plano comum” (MARX, 2008,
p. 407). Ou seja, a superação do modo de produção capitalista exige a conjugação
de dois princípios: a autogestão das empresas (cooperativismo) e o planejamento
democrático da produção. Se uma revolução proletária não for capaz de aplicar
esses dois princípios, ela terá um processo incapaz de superar a lógica do
capital e, portanto, falhado na tarefa de edificação de um novo modo de produção.
Esse é o caso da maioria das experiências revolucionárias do século XX em que a
organização econômica se baseou em empresas estatais administrada por
funcionários públicos comandos por um partido único e trabalhando de acordo com
um plano elaborado pela alta burocracia estatal, em regime de produção de
capital em concorrência mundial com os Estados Capitalistas. Por motivos
diferentes, é também o caso da original experiência iugoslava em que o sistema
de cooperativas não se propôs a construir um plano comum mantendo a produção
social presa aos limites do mercado capitalista.